18 de mar de 2011

Depoimento de um brasileiro que mora na cidade de Sendai

Uma semana após a grande tragédia do terremoto seguido de um grande tsunami que arrasou a costa nordeste do Japão, deixo um depoimento que li no blog "Pequenas Cousas" de um brasileiro que vive na região de Sendai há vários anos. Seu nome não foi divulgado, pois não quer ser importunado, e em seu depoimento, ele critica a forma da mídia brasileira em informar as notícias sobre o cotidiano da região devastada.

Sendai, 17 de março
Amigos,

Estou mandando este email para aqueles no Brasil me pedindo informacoes.

Pra comecar, ha poucos brasileiros nas areas atingidas, motivo pelo qual a gente nao houve falar de vitimais fatais brasileiras. Os dekasseguis se encontram em regioes industrializadas. A regiao atingida, Tohoku ("Nordeste") e' uma das mais pobres do pais. Sempre foi. Nao e' a toa que escolheram Tohoku pra ser o local onde Oshin nasceu.

Os brasileiros nesta regiao sao gente como eu, fora do movimento dekassegui. Sao ryugakuseis, gente que casou com japones. Enfim, gente que nao precisa, nao quer ou nao tem como conviver com outros brasileiros.

Sao menos de 1000 na area atingida, o que da menos de 0.4% da populacao brasileira no pais. Logo, se voce e' ignorante da geografia do Japao mas esta preocupado com seus queridos aqui (99% dos casos), fique tranquilo porque a possibilidade dele/dela ter morrido e' pequena.

Mas ha probabilidade de um terremoto secundario de magnitude 7 na escala Ritcher (equivalente ao de Kobe). A vizinha da frente, que teve a casa trincada, deixa o carro na rua (e nao na garagem) e mora e dorme no carro com medo dele. So entra na casa pra cozinhar e fazer as necessidades.

Mas ele nao aconteceu nos primeiros 4 dias onde a probabilidade era maior. Mas ele pode ocorrer dentro dos proximos meses, dizem os especialistas. Como se sabe disso? Porque isso ocorreu em terremotos de ordem semelhante. A ciencia de prever terremotos hoje se restringe a estudar o passado ja que nada se sabe como prever terremotos.

Este proprio e' uma prova disso. O grande terremoto que todo mundo fala e' o Tokai Jishin, centrado na area que vai de Tokyo a Nagoya. Tenho ouvido falado dele desde que vim ao Japao. De que ja esta na hora de acontecer (isso e' baseado na teoria de eles ocorrem em ciclos periodicos, baseados em comprovacoes empiricas - outra coisa do que se sabe muito pouco).

O da semana passada foi zebra. Pegou todos os especialistas de surpresa e muda toda a perspectiva da coisa. O de Tokai, se vier, vai ser picuinha ja que, em termos de probabilidade, deve ser menor que este, que, dizem, acontece a cada 1000 anos.

Outra mentira e' de que este foi o maior da historia do Japao. Bem, ha' registos de ocorreu um semelhante em 800 AD, 1200 anos atras. Este e' maior desde que comecaram a medir e registrar terremotos no Japao, ha um seculo atras.

E quanto a radiacao? Tome cuidado com as noticias que voce ouve. A comecar pela Globo ("uma das 10 maiores TVs do mundo") ha muita mentira que ate ginasianos aqui conseguiriam apontar. Me dizem que muito mudou no Brasil. Dificil de acreditar. O amadorismo, a cultura de fazer tudo nas coxas continua o mesmo.

Pra comecar a maioria nao consegue discernir Fukushima provincia da Fukushima cidade, o que e' sinal de que estao mal acessorados. A usina fica na regiao litoranea de Futaba-gun (a regiao em que minha mae nasceu) na costa litoranea da provincia de Fukushima.

Como poderia de se esperar ela fica numa regiao parcamente povoada. Ja a cidade de Fukushima fica no meio da provincia (veja mapa em anexo). Nao e' a cidade mais importante da provincia (Koriyama), outra coisa que o blogueiro e o jornalista para-quedista desconhece. Ha 250 km de distancia entre a usina e a cidade de Fukushima enquanto a area de evacucao e' de 30 km em torno da usina. Logo nao ha problemas imediatos.

As implicacoes a medio e longo prazo sao diferentes. O perigo e' real. A preparacao psicologica do publico para o pior ja comecou discretamente. A aparicao do emperador ontem na TV e' para isso. Ontem comecaram a aparecer gente na TV e radio dizendo com enfase que "este problema nao e' especifico de Fukushima mas de todo povo japones".

Por que tanta enfase no obvio, pode voce perguntar. E' para preparar o pessoal de outras provincias a receber eventuais vitimas da radiacao, ao inves de repudia-los, como ocorreu com Nagasaki e Hiroshima.

Ustream da NHK ao vivo para o mundo de graca: http://www.ustream.tv/channel/nhk-world-tv

E' em ingles. Como disse para alguns de voces anos atras, e' perdoavel nao saber japones. Num mundo globalizado, quem nao sabe ingles esta perdido. Como a maioria ja passou da hora de aprender linguas, facam seus filhos aprenderem.




Sendai, 18 de março
Amigos,

Emborar a luz tenha voltado 3 dias depois, ainda hoje, 1 semana depois, continuamos sem agua e gas.

Nao tomo banho, nao escovo dentes, nao lavo cabelo nem fiz a barba por uma semana. O luxo e' limpar o corpo com uma toalha molhada com agua quente.

O cafe da manha se resume a uma fatia de pao pullman com leite. O jantar e' cup lamem. O almoco varia. Como nao ha agua, o prato e' revestido com saran wrap antes de ser usado, evitando de ter que lava-lo. Uso o mesmo copo plastico e hashi faz ha uma semana. Nunca lavados.

O pessoal vai ate a piscina da escola pra pegar agua a ser usado como agua de descarga da privada.

O que voce acha de todo isso? Se estou certo, ha um gap entre o que eu e voce sentimos a respeito. Me acho abencoado. Bem ou mal tenho teto, comida e luz.

Mas esta e' a questao. O terremoto mudou a situacao em 2 minutos. Depois de 2 minutos, voce vive num mundo diferente. Quao rapidamente voce seria capaz de se adaptar a esse novo mundo? Quao rapidamente voce e' capaz de reconhecer que vive num mundo diferente? Isso e' fundamental e tenho visto que esse e' o problema da maioria.

E nao se iluda. Nao e' problema do vizinho. Ele comeca em casa, com seu marido, esposa ou filho. As pessoas ficam atordoadas com o terremoto e nao sabem o que fazer. Como convence-las do que e' prioritario no momento? O que fazer depois um terromoto as 2:50 da tarde? Estamos no inverno e nesta epoca do ano as 17:30 fica tudo escuro aqui (o dia e' notavelmente mais curto em Sendai do que Tokyo). O que fazer em 2 horas e meia ate o sol cair? Sem aquecedor, voce tem que guarantir que estara em bem sua cama com cobertores e futom o suficiente para enfrentar o frio de zero graus a noite.

A minha esposa comecou a limpar a bagunca da casa, enquanto eu achei que o importante era garantir um lugar para dormir (o que nao seria possivel nos quartos dado a bagunca e terremotos secundarios) dentro da casa e o jantar. Achou que a luz voltaria em questao de horas (errou a previsao por 3 dias). Gastamos um bom tempo discutindo o que fazer.

E a luta comecou no dia seguinte. Alguns supermercados comecaram a vender. Eles nao deixam o pessoal entrar dentro; colocam mesas do lado de fora com mercadoria, como se fosse feira livre. O pessoal entao entra na fila e espera a vez. E e' racionado, uma unidade de cada tipo de produto. A espera na fila durou, na minha experiencia, de 1 hora e meia a 3 horas, dependendo do supermercado. As 7:30 da manha tem fila num super que abre as 10:00.

Uma coisa muito distinta do Brasil e' a maneira que os supermercados e firmas em geral aqui se comportam. Me lembram as aulas de Educacao Moral e Civica que tinha no ginasio. Que, no estilo bem brasileiro, o pessoal aprendia mas nunca achava que era para ele ou pra alguem esperto aplicar na pratica.

Aqui se leva a serio isso. As firmas estao cientes do papel que cumprem na sociedade. Elas cobram mas nenhuma tentou cobrar mais caro pra aproveitar. Funcionaram desde o dia 1 ou 2, mesmo tendo motivos pra nao funcionarem por semanas.

Embora haja comida para uma semana, resolvemos comer frugalmente. Simplesmente porque nao ha garantias de que a situacao se normalize antes disso. Obvio, nao? Mas tome a minha palavra, nao e'. Muita gente tem problemas em entender isso. Ha gente fazendo o contrario. Enquanto estocamos o que pudermos, ha gente que preferiu comer o que tem pra ir comprar quando acabar.

E' uma estrategia perigosissima ao meu ver. Pressupoe que o abastecimento voltara ao normal ate la ou que ainda havera comida no estoque do supermercado, quando na verdade, a possibilidade do supermercado esgotar e' maior a medida que o tempo passa. O que mais me surpreende e' que essas pessoas nao percebem que a vida delas esta em jogo. Nao estamos aqui falando de comprar um video game para o filho. Quanto tempo voce consegue viver sem comprar um game para seu filho? Quanto tempo voce consegue viver sem comer?

Vamos todo dia, de manha e no final da tarde ao abrigo (sao quadras cobertas de escolas transformadas em abrigos) perto de casa pegar agua e comida tambem. Sao distribuidos gratuitamente um garrafa de 500 ml de agua, oniguiri e uma banana. Um conjunto, note bem, por familia e nao por individuo. E nao da pra todos da fila.

A volta da luz nos deixa mais confuso ainda. Vendo TV, radio ou Internet nos da a impressao de estarmos interligados ao resto pais e do mundo quando isso nao ocorre na realidade. As estradas estao interditadas e mesmo que alguem queira me enviar comida de outra parte do pais o servico de entrega nao funciona. A gasolina esta racionada tambem.

Existe uma dicotomia entre o que se sente e a realidade. Isoloados fisicamente mas online com o resto do mundo. Muito estranho essa sensacao.

Um livro americano que fiz meu filho ler meio ano atras foi "A Estrada", que virou filme em 2009. E' a historia de pai e filho tentando sobreviver num mundo apocaliptico. A percepcao da realidade e a habilidade de como se virar num mundo novo com situacoes nunca vistas antes e' o que valem. A leitura valeu porque o moleque foi capaz de entender rapidamente o que eu falava enquanto a mae teve (tem ate hoje) problemas pra entender.

Isto porque sempre achei que eletricidade, banho de agua quente e TV, coisas que damos como certas sao artificiais. Pressupoem civilizacao. Ao contrario do que muitos pensam, nao ha garantia de que a humanidade sempre ira caminhar pra frente. Ha retrocessos e o que voce fara numa situacao dessas?

6 de mar de 2011

J-Dorama (IX): Nodame Cantabile Live Action

Aproveitando esse feriadão de carnaval como não vou viajar mesmo, vou descansar, curtir alguns doramas, games, animês e dar uma corridinha quando tiver tempo bom. E mesmo pós-feriado de carnaval, eu é que dessa vez entrarei de férias para prolongar minha curtição. YEY!!!! :)

E dentro dos doramas da minha lista, está o Live Action de Nodame Cantabile. Após o sucesso no mangá e no animê, os produtores da saga não poderiam deixar de disponibilizar a versão em "carne e osso", claro.

Para quem não viu a versão em animê, pode assistir direto a versão Live Action sem problemas, pois a estória é a mesma. Não vou colocar a explicação da estória, pois já postei aqui. Mais uma vez, quem curte música clássica, vale a pena conferir. Como disse antes, é um "colírio para os ouvidos". Algumas músicas que tocaram: Beethoven, Chopin e Mozart.

Os atores encarnaram bem cada personagem correspondente. Juri Ueno interpretou a Nodame e Hiroshi Tamaki, o Chiaki.

Porém, vamos a alguns pontos: Talvez eu não devesse ter visto a versão em animê, mas notou-se claramente que os produtores fizeram um live action com jeitão estilo mangá (efeitos especiais com socos exagerados e expressões "desenhadas") e em muitas cenas ficaram forçadas demais para o meu gosto. E, meu... quem é aquele velho japonês de peruca branca imitando um europeu forçando um sotaque difícil de entender até para os próprios japoneses (Strezemann)? Tem tantos artistas estrangeiros de fisionomia ocidental que falam japonês e moram no Japão que poderiam ser o Strezemann (dica: que tal o brasileiro Rui Ramos? link)... Claro, os produtores colocaram um ator caricaturático de propósito para dar ar comediano. Não sei se tivessem colocado um estrangeiro de verdade iria surtir o mesmo efeito. E confesso que estranhei um pouco o dorama no começo, mas com o desenrolar da estória, acabei me acostumando com as atuações dos atores. (Isso que dá ficar comparando com o animê, :/)

Mas mesmo com essas forçadas de barra, é um dorama divertido, e ao mesmo tempo, atraente pelas músicas tocadas na saga. Mais um recomendado.

Nodame Cantabile Live Action, feito em 2006, tem 11 episódios e mais dois especiais, feito em 2008.

1 de mar de 2011

Por que não tem alagamento em Tóquio?

Anualmente uns 25 tufões assolam o território japonês.
Desses, dois ou três atingem Tóquio em cheio, com chuvas fortíssimas durantre várias horas ou até um dia inteiro.
Mas nem por isso ocorrem enchentes ou alagamentos na cidade.
Por que será? Veja as explicações abaixo.


O subsolo de Tóquio alberga uma fantástica infraestrutura cujo aspecto se assemelha ao cenário de um jogo de computador ou a um templo de uma civilização remota. Cinco poços de 32 m de diâmetro por 65 m de profundidade interligados por 64 Km de túneis formam um colossal sistema de drenagem de águas pluviais destinado a impedir a inundação da cidade durante a época das chuvas.


A dimensão deste complexo subterrâneo desafia toda a imaginação. É uma obra de engenharia sofisticadíssima realizada em betão, situada 50 m abaixo do solo, fato extraordinário num país constantemente sujeito a abalos sísmicos e onde quase todas as infraestruturas são aéreas. A sua função é não apenas acumular as águas pluviais como também evacuá-las em direção a um rio, caso seja necessário. Para isso dispõe de 14.000 HP de turbinas capazes de bombear cerca de 200 t de água por segundo para o exterior.


Conclusão: Não existe problema insolúvel. Basta querer enfrentá-lo.
Para esse nível de tecnologia, as "enchentezinhas" de São Paulo, Rio, etc. são tiradas de letra.